Mensagem do Superior Geral, P. Tomaž Mavrič, CM, para a festa de São Vicente de Paulo Destaque

terça, 20 setembro 2016 17:06 Escrito por 
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“Vicente de Paulo: um místico da Caridade”: este é o tema que nos propõe o P. Tomaž Mavrič, CM, para o próximo 27 de setembro, festa de São Vicente de Paulo, em uma carta dirigida a toda a Família Vicentina, que a seguir reproduzimos.

Roma, 19 de setembro de 2016

Prezados membros da Família Vicentina,

Que a graça e a paz de Jesus estejam sempre conosco!

É com grande alegria, entremeada de reconhecimento a cada um de vocêsque estão a serviço de nossos “senhores e mestres” em toda parte do mundo, quedirijo esta carta pela primeira vez como Superior Geral. Gostaria de expressar minhaprofunda gratidão e admiração a todos que vivem e servem as pessoas pobres,mesmo nos lugares mais remotos do globo, sendo testemunhas do amor de Jesus!Somos todos servidores e é maravilhoso saber que nunca estamos sozinhos nesteserviço. Jesus, nossa Mãe Maria, São Vicente de Paulo, Santa Luísa de Marillac e todosos outros bem-aventurados e santos da Família Vicentina nos acompanham nestecaminho.

Gostaria de aproveitar esta ocasião para agradecer do fundo do coração oPadre Gregory Gay, CM, nosso Superior Geral durante os últimos 12 anos, bem comoa todos os outros membros e dirigentes da Família Vicentina a nível internacional,nacional e local que, durante anos, trabalharam incansavelmente com muitoentusiasmo e dedicação para tornar possível a proclamação da Boa Nova aos pobresde forma afetiva e efetiva.

Aproveito também desta oportunidade para estender meu sinceroagradecimento a todos vocês, membros dos diferentes ramos da Família Vicentina,que me escreveram por ocasião de minha eleição como Superior Geral emanifestaram seus melhores votos, assegurando-me especialmente suas constantesorações. Como não será possível responder e agradecer individualmente, sintam-sepessoalmente incluídos nestas palavras de agradecimento e estejam certos de minhaoração quotidiana.
A Providência nos oferece um momento de “graça especial” para este 400ºaniversário (1617-2017) de nossa espiritualidade e carisma vicentino comuns. Muitosdentre vocês já iniciaram um planejamento intensivo para partilhar nossaespiritualidade vicentina e nosso carisma a nível local, nacional e internacional, bemcomo para encorajar outras pessoas a seguir o mesmo caminho. Convido todos aprosseguir a reflexão sobre a melhor maneira de partilhar com os outros este “tempoespecial de graça”, a planejar e a agir juntos.

A divisa que iluminará toda a Família Vicentina em 2017 é: “... Era estrangeiro e me acolhestes...” (Mateus 25, 35). Cabe a nós começar o caminho, voltar nosso olhar aos nossos irmãos e irmãs especialmente os mais abandonados e aqueles com os quais ninguém se preocupa, a fim de ter a certeza de que nossa reflexão, planejamento e ação se orientam na boa direção. A festa de São Vicente de Paulo nos dá uma nova ocasião de examinar as motivações e as maneiras de refletir, de planejar e de agir de Vicente.

O teólogo Karl Rahner, no final do século XX, tinha pronunciado estas palavras proféticas: “Os cristãos do século XXI serão místicos ou desaparecerão”. Por que podemos dizer que São Vicente de Paulo era um “místico da Caridade”?

Gostaria de convidar e encorajar cada um de nós, individualmente e em grupo, a refletir, planejar e agir a partir da seguinte questão:

Por que e como posso descrever Vicente como um místico da Caridade?

Pedi a três de nossos Coirmãos, que já refletiram e escreveram sobre este assunto, para partilhar conosco uma breve reflexão pessoal. Possam estes pontos de vista nos ajudar a renovar e aprofundar nossa própria reflexão.

1) Padre Hugh O'Donnell, CM
Todos sabemos que Vicente era um homem de ação, também podemos ficar surpresos que possam apresentá-lo igualmente como um místico. Mas na verdade, era sua experiência mística da Trindade e, em particular a Encarnação, que motivava todas as suas ações em favor das pessoas pobres. Henri Brémond, eminente historiador da Escola francesa de espiritualidade, foi o primeiro a chamar nossa atenção. Ele dizia: “... Foi a mística (de Vicente) que nos deu o maior dos homens de ação”. Mais tarde, André Dodin e José María Ibañez chamaram Vicente de um “místico da ação” e Giuseppe Toscani, CM, unia mística e ação e ia ao cerne da questão chamando-o de “um místico da Caridade”. Vicente viveu em um século de místicos, mas ele se revelou como o místico da Caridade.

Ser um místico implica uma experiência, a experiência do mistério. Para Vicente, isso significava uma profunda experiência do mistério do amor de Deus. Sabemos que os mistérios da Trindade e da Encarnação estavam no âmago de sua vida. A experiência do amor abrangente da Trindade pelo mundo e a união incondicional do Verbo encarnado com toda pessoa humana modelou, condicionou e inflamou seu amor pelo mundo e por todo mundo, especialmente pelos irmãos e irmãs necessitados. Ele olhava o mundo com os olhos do Pai (Abba) e de Jesus, e acolhia todo mundo com o amor incondicional, o ardor e o dinamismo do Espírito Santo.

A mística de Vicente era a fonte de sua ação apostólica. O mistério do amor de Deus e o mistério dos pobres eram os dois polos do amor dinâmico de Vicente. Mas o caminho de Vicente tinha uma terceira dimensão que consistia na sua maneira de considerar o tempo. O tempo era o meio pelo qual a Providência de Deus se manifestava a ele. Ele agia conforme o tempo de Deus e não conforme seu próprio ritmo. “Façamos todo o bem que se achar para fazer”, aconselhava. “Não passar por cima da Providência”.
Um outro aspecto da temporalidade em Vicente era a presença de Deus aqui e agora -“Deus está presente! ” (influência de Ruysbroek). Deus está presente no tempo. Deus está presente nas pessoas, nos acontecimentos, nas circunstâncias, nas pessoas pobres. Deus nos fala agora, neles e através deles. Vicente era um homem da história que se desenvolve no sentido mais profundo. Ele seguia passo a passo a conduta da Providência. Ele não tinha agenda pessoal, nem ideologia. Foi-lhe preciso décadas para alcançar tal liberdade interior, razão pela qual a caminhada de Vicente rumo à santidade e à liberdade (1600-1625) é a chave para compreender a dinâmica quotidiana do apóstolo da Caridade.

2) Padre Robert Maloney, CM
Quando falamos dos místicos, geralmente pensamos em pessoas que vivem experiências religiosas extraordinárias. Sua busca de Deus passa de uma busca ativa à uma presença passiva. Eles rezam, como disse São Paulo à Igreja de Roma (8, 26), “com gemidos inexprimíveis”. Os místicos têm momentos de êxtase quando estão completamente imersos em Deus, “se com o corpo ou fora do corpo, não sei”, como São Paulo conta sua experiência em 2 Coríntios 12, 3. Às vezes, eles têm visões e recebem revelações privadas. Eles tentam, com dificuldade, descrever para os outros seus momentos de luz intensa e de dolorosa escuridão. São Vicente tinha familiaridade com escritos dos místicos como Teresa de Ávila e João da Cruz. Embora habitualmente cauteloso com relação a estranhos fenômenos espirituais, ele admirava a senhora Acarie, uma das místicas de renome da sua época, que viveu em Paris durante seus primeiros anos nesta cidade.

A mística de Vicente era completamente diferente. Ele encontrava Deus nas pessoas e nos acontecimentos. Suas “visões” eram profundamente cristológicas. Ele viu Cristo nos traços dos pobres. Para usar uma expressão da tradição jesuíta que se tornou popular nos documentos vicentinos, ele era um “contemplativo na ação”. Cristo o conduziu aos pobres e os pobres o conduziu a Cristo. Quando ele falava dos pobres e de Cristo, suas palavras eram frequentemente extasiantes. Ele dizia aos seus Padres e Irmãos: Se perguntássemos a Nosso Senhor: “Que vieste fazer na terra?” ─ “Assistir os pobres”. ─ “O que mais?” ─ “Assistir os pobres”, etc. Ora, ele tinha porcompanhia somente os pobres e se ocupava muito pouco com as cidades,vivendo quase sempre no meio dos camponeses, dedicando-se a instruí-los.Não somos nós, por isso, muito felizes de estar na Missão pelo mesmo fim quelevou Deus a se fazer homem?...! E se perguntassem a um Missionário (sobreisso), não lhe seria uma grande honra poder dizer com Nosso Senhor “Evangelizare pauperibus misit me?” (Coste XI, 108). Quando falava de Cristo, àsvezes ele ficava quase em êxtase. Em 1655, ele exclamou: “Peçamos a Deusque dê à Companhia este espírito, este coração, este coração que nos faça irpor toda parte, este coração do Filho de Deus, coração de Nosso Senhor,coração de Nosso Senhor, coração de Nosso Senhor, que nos dispõe a ir comoele iria... Envia-nos, como os enviou, para levarmos por toda parte o fogo, o fogodivino por toda parte, o fogo do amor...” (Coste XI, 291).

Para Vicente, as dimensões horizontais e verticais da espiritualidade eramindispensáveis. Ele considerava que o amor de Cristo e o amor dos pobreseram inseparáveis. Exortava continuamente os seus discípulos não somente aagir, mas também a rezar, e não só a rezar, mas igualmente a agir. Diante deuma objeção de seus discípulos: “Mas, senhor Padre, há tanto que fazer, tantosofícios na casa, tantos trabalhos na cidade, nos campos; trabalho por toda parte.É preciso, porventura, deixar tudo de lado para só pensar em Deus?” E elerespondia com veemência: “Não, mas devemos santificar essas ocupações,buscando Deus nelas e fazê-las antes com o fim de encontrá-lo nelas do quepelo gosto de vê-las feitas. Quer Nosso Senhor que, antes de tudo, procuremossua glória, seu reino, sua justiça e, para isso, façamos da vida interior, da fé, daconfiança, do amor, dos exercícios de religião, da oração, das confusões, dashumilhações, dos trabalhos e dos sofrimentos, o que há de mais importantepara nós, visando a Deus, nosso soberano Senhor. Apresentemos-lhe as ofertascontínuas de nossos serviços e de nossas aspirações no sentido de conquistarreinos para sua bondade, graças para sua Igreja e virtudes para a Companhia.Uma vez firmados assim na busca da glória de Deus, estejamos seguros de que tudo mais se seguirá” (Coste XII, 132).

Em uma obra revolucionária de 11 volumes, escrita há quase um século, HenriBrémond descrivia a época de São Vicente como uma era de “conquista mística”.Na conclusão de um eloquente capítulo sobre Vicente, ele escrevia: “O maior denossos homens de ação, foi a mística quem no-lo deu” (Histoire littéraire dusentiment religieux en France, III - la conquête mystique (Paris, 1921), p. 257).

3) Padre Thomas McKenna, CM
Para bem usar este título, a palavra “mística” deve ser entendida em sentido geral. A conotação mais popular é a de uma pessoa que tem mais ou menos uma experiência “direta” de Deus (visões, vozes, pressentimentos, sons) sem fazer mediação. A literatura sobre mística descreve experiências como êxtases, ser transportado para o “terceiro céu”, sair fora de si mesmo e “mergulhar nas profundezas” do mistério (por exemplo, no abismo, no oceano, na terra), que é Deus. Seu vocabulário é distinto, por exemplo, moradas interiores progressivamente mais profundas, contemplação ativa e passiva, com etapas de purificação, iluminação, unificação, além de si mesmo, noite escura e escuridão ofuscante. Em contraste, a linguagem de Vicente exprimindo a experiência religiosa era bastante simples e direta, ele não testemunhou este gênero de acontecimentos em sua própria vida.

Mas o termo místico pode ser usado em um sentido mais amplo. Em outras palavras, poderia se referir a alguém que viveu e sentiu um contato com o sagrado em sua vida e que respondeu a este encontro através do serviço ao próximo. Neste sentido mais amplo, Vicente pode ser considerado como um místico.

O sentido mais abrangente poderia se entender da seguinte maneira: um místico é aquele que escuta e se deixa aprisionar no amor de Deus pela criação, e depois se compromete ao mesmo tempo a reconhecer este amor e a transmiti-lo ao mundo. Para Vicente, este amor de Deus (ou melhor, o ‘fato de amar’) se revela particularmente nas pessoas que são pobres e marginalizadas. Ele os reconhece ao mesmo tempo como portadores privilegiados do amor de Deus e aqueles que merecem recebê-lo em primeiro lugar. E isso, ele colocou em prática, levando fervorosamente a Boa Nova deste amor aos pobres.

Do mesmo modo que a letra apropriada de uma canção pode fazer emergir a profunda beleza de uma melodia, as palavras de Isaías que Jesus pronunciou em Lucas, capítulo 4 deram uma ressonância especial à experiência de Deus de Vicente. Jesus anuncia não somente a própria missão recebida de seu Pai, mas também a própria experiência de seu “Abba”, como amor pelo mundo, particularmente pelos desprovidos: “Fui enviado para proclamar a Boa Nova aos pobres”. Para parafrasear, “o fogo do amor (o ‘fato de amar’) de meu Pai queima em mim e este amor me envia a levá-lo ao mundo, mais especialmente aos pobres”. Continuando a analogia, Vicente reconheceu essas palavras como a letra de uma melodia que ressoava no mais profundo dele mesmo. Era como se, ao ouvir este texto em um momento especial de sua vida, Vicente dissesse algo como: “Ah! Eis aí! Estas palavras exprimem exatamente minha experiência do amor de Deus e a maneira como quero passar minha vida a responder e a propagar este amor”.

De outra perspectiva, se poderia descrever Vicente como um místico “com duas visões”. Em outras palavras, ele (via) fazia a experiência do mesmo Deus através de duas lentes diferentes e isso, simultaneamente. Uma das lentes era a sua própria oração; a outra era o pobre, bem como o mundo em que vivia. Cada ângulo da visão influenciou o outro, um aprofundando e aperfeiçoando a percepção do outro. Vicente “viu” (e sentiu) o amor de Deus através destes dois prismas ao mesmo tempo e agiu energicamente para responder ao que ele via.

Para manter o curso de nossa reflexão, planejamento e ação como membros da Família Vicentina, para nos ajudar a refletir sobre Vicente como místico da Caridade, as numerosas congregações que fazem parte da Família Vicentina, ou farão parte no futuro, têm suas próprias Constituições que são suas primeiras fontes e as mais importantes e, todos os ramos em geral dispõem dos escritos e conferências de São Vicente de Paulo e de outros santos e bem-aventurados da Família Vicentina. Que nos comprometamos a ler estes textos e a rezá-los diariamente.

Com a aproximação da festa de São Vicente de Paulo, que celebraremos com toda a Família Vicentina e com muitas outras pessoas, grupos e organizações, aqueles e aquelas que encontramos e servirmos, possamos ser encorajados por este “tempo de graça especial” que a Providência nos oferece, este 400º aniversário do nascimento de nossa espiritualidade e carisma comuns.

Desejo a cada um de nós uma maravilhosa celebração, ao mesmo tempo que continuamos a nos sustentar mutuamente na oração!

Seu irmão em São Vicente,
Tomaž Mavrič CM
Superior Geral 

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