Discurso do Papa Francisco à Familia Vicentina, em Roma Destaque

segunda, 23 outubro 2017 16:57 Escrito por 
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Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Obrigado pela vossa recepção e obrigado ao Superior Geral por ter apresentado a nossa reunião.

Saúdo-vos a todos vós e dou graças ao Senhor pelos 400 anos do vosso carisma. São Vicente gerou um impulso de caridade que dura séculos: um impulso que brotou do seu coração . Por isso, hoje temos aqui a relíquia: o coração de São Vicente. Hoje gostaria de incentivá-los a seguir este caminho, propondo três simples verbos que acredito que são muito importantes para o espírito vicentino, mas também para a vida cristã em geral: adorar, acolher, ir.

Adorar. São inumeráveis os convites de São Vicente a cultivar a vida interior e a dedicar-se a oração que purifica e abre o coração. A oração é especial para ele. É a bússola de todos os dias, é como um manual da vida, é – escrevia ele – “o grande livro do pregador”: Somente rezando se consegue de Deus o amor que deve ser derramado no mundo. É rezando que os corações das pessoas são tocados quando o Evangelho é anunciado (ver Carta a A. Durand, 1658). Mas para São Vicente a oração não é só um dever, e menos ainda um conjunto de fórmulas. A oração é parar diante de Deus para estar com Ele, para dedicar-se simplesmente a Ele. Está é a oração mais pura, a que deixa espaço para o Senhor e para o seu louvor, e nada mais: a adoração.

Uma vez descoberta, a adoração é indispensável, porque é pura intimidade com o Senhor, que dá paz e alegria, e derrete os cuidados da vida. Por isso, aqueles que se encontravam sobre pressões particulares, São Vicente aconselhava a permanecer em oração “sem tensão, confiando em Deus com olhar simples, sem tentar obter a sua presença com um esforço considerável, mas abandonando-se a Ele” (Carta a G. Pesnelle, 1659).

Esta é a adoração: colocar-se diante do Senhor, com respeito, com calma e em silêncio, dando-lhe o primeiro lugar, abandonando-se com confiança. Para pedir depois que o seu Espírito venha até nós e deixe que nossas coisas vão até Ele. Assim, também as pessoas necessitadas, os problemas urgentes, as situações difíceis e pesadas entram na adoração, tanto é que São Vicente pedia que se “adorasse a Deus mesmo quando as razões são difíceis de compreender e aceitar” (ver Carta a F. Get, 1659). Aquele que adora, aquele que vai à fonte viva do amor, não pode mais “contaminar-se”, por assim dizer. E começa comportar-se com os outros como o Senhor fez com ele: ele torna-se mais misericordioso, mais compreensivo, mais disponível superando a sua dureza e rigidez e abrindo-se aos outros.

Chegamos ao segundo verbo: acolher. Quando escutamos essa palavra, imediatamente pensamos em algo que fazer. Mas, em realidade, acolher é uma disposição mais profunda: Não se trata somente de abrir o espaço a alguém, mas sim, de ser pessoas acolhedoras, disponíveis acostumadas a dar aos outros. Como Deus para nós, assim nós para os outros. Acolher significa redimensionar o próprio eu, endireitar a forma de pensar, entender que a vida não é propriedade privada e que o tempo não me pertence. É um desapego lento de tudo que é meu: o meu tempo, o meu descanso, os meus direitos, os meus programas, a minha agenda. Aquele que acolhe renuncia ao “eu” e faz entrar na sua vida o vós e o nós.

O cristão acolhedor é um verdadeiro homem e mulher de Igreja, porque a Igreja é Mãe e uma mãe que acolhe e acompanha a vida. E como um filho que se parece à sua mãe, em traços, assim o cristão tem estes traços da Igreja. Então é um filho verdadeiramente fiel à Igreja, que é acolhedora, que, sem reclamar, cria concórdia e comunhão e com generosidade semeia paz, mesmo que não seja correspondida. Que São Vicente nos ajude a promover este “DNA” eclesial de acolhida, de disponibilidade, de comunhão, para que de nossas vidas “toda a amargura, ira, cólera, gritaria, blasfêmia e toda a malícia sejam tiradas dentre vós” (Efésios 4:31).

O último verbo: ir. O amor é dinâmico, sai de si mesmo. Aquele que ama não fica numa cadeira olhando, esperando pelo advento de um mundo melhor, mas com entusiasmo e simplicidade levanta-se e vai. São Vicente dizia frequentemente: “Portanto, nossa vocação é ir, não a uma paróquia, nem a uma diocese, mas a toda a terra. E para fazer o que? Para inflamar os corações dos homens, fazendo o que fez o Filho de Deus, Ele, que veio para trazer fogo ao mundo, para inflamá-lo com seu amor”. (Conferência de 30 de maio, 1659). Essa vocação sempre é válida para todos. Fazei essas perguntas a vós mesmos: Saio ao encontro dos outros como quer o Senhor? Levo aonde vou este fogo de caridade ou fecho-me para aquecer-me em frente a minha lareira?

Queridos irmãos e irmãs, obrigado porque estão em movimento pelos caminhos do mundo, como São Vicente desejaria também hoje. Desejo que vós não pareis, mas que sigais desenhando cada dia o amor de Deus e que o espalheis por todo o mundo através da caridade, da disponibilidade, da concórdia. Abençoo todos vós e aos pobres que encontreis. E, por favor, peço-vos a caridade de não se esquecerem de rezar por mim.

Papa Francisco

Ler 127 vezes Modificado em quinta, 26 outubro 2017 11:20

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